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Integrated Territorial and Urban Conservation
Restoration of Architectonic and Industrial Heritage
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A
Fábrica de Cerâmica das Devesas – património industrial em risco
Ana Margarida Portela
O resultado dos cerca de oito anos de investigação sobre este antigo complexo industrial de fundação oitocentista materializou-se já numa dissertação de Mestrado, estando actualmente em curso a elaboração do nosso Doutoramento na mesma área, sob a orientação da Prof. Doutora Lúcia Rosas ( Faculdade de Letras da Universidade do Porto). O estudo já realizado permitiu esclarecer de forma cabal a enorme importância de António Almeida da Costa – fundador deste complexo – e do seu amigo, colaborador e sócio José Joaquim Teixeira Lopes na projecção das Artes Industriais em Portugal no século XIX, até porque a dinâmica que o primeiro imprimiu a esta actividade ultrapassou a mera contribuição capitalista (aspecto mais conhecido e revelado da sua biografia), devido à formação artística que precedeu a sua actividade industrial. Ora,
na
qualidade de investigadora sobre a antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas, ao verificarmos
a sua elevadíssima importância histórica e artística, mesmo em termos
internacionais, e a
negligência com que tem sido conduzido o seu processo de classificação
patrimonial, cumpre-nos o duplo papel de divulgar um pouco da história e valor deste complexo
industrial, assim como dar a conhecer a forma como tem sido
conduzido o processo da sua salvaguarda. Breve
nota histórica sobre o complexo industrial das Devesas
Os
primeiros anos da actividade de António Almeida da Costa foram passados numa
oficina de mármores que o mesmo havia fundado na antiga Rua do Laranjal
(Porto), em
finais da década de 1850, a qual alcançou rapidamente um bom nome na área.
Porém, quem era António Almeida da Costa? António
Almeida da Costa, tal como outros canteiros instalados no Porto no fim da década
de 1850 e no início da década de 1860, tinha as suas raízes na região
de Lisboa, nomeadamente em S. Vicente de Alcabideche (concelho de Cascais). António
Almeida da Costa era afilhado, sobrinho e filho de canteiro, sendo
que três dos seus irmãos – Francisco, José e Joaquim – viriam também a
ser canteiros. O pai de António Almeida da Costa – José da Costa
– integrou a obra do Palácio Nacional da Ajuda
(Lisboa). A
juventude de António Almeida da Costa
Para
a época anterior à vinda de António Almeida da Costa para o Porto, a
sua biografia é ainda obscura. Contudo, pelo que conhecemos da sua obra
posterior e pelos dados acima referidos, terá certamente adquirido a sua formação
inicial de canteiro na região de Lisboa. António Almeida da Costa terá vindo para o Porto à procura de
melhores oportunidades na sua arte, já que a burguesia endinheirada da cidade
cada vez mais recorria ao material pétreo em moda na capital lisboeta – o
mármore – para nobilitar os seus monumentos fúnebres. Note-se que, no
primeiro ano lectivo de 1854-1855 da Escola Industrial do Porto, apenas seis
canteiros estavam inscritos, enquanto que, no mesmo ano lectivo, existiam no
Instituto Industrial de Lisboa treze canteiros.
Em Lisboa existiam muitas mais oficinas de cantaria, dada a maior procura nessa
área. Face a esta maior oferta de canteiros em Lisboa, António Almeida da
Costa também poderá ter decidido ir para um local onde o mercado dos mármores
estava ainda por explorar devidamente. A
formação artística de António Almeida da Costa na Escola Industrial do
Porto Se
António Almeida da Costa chegou da região de Lisboa já formado como
canteiro, estamos certos que veio ainda aprender bastante com Emídio Amatucci,
dada a qualidade artística deste último. Porém, a influência deste exímio escultor
ornatista sobre António Almeida
da Costa não se limitou ao contacto oficinal. Assim,
António Almeida da Costa terá tido uma tripla formação: a aprendizagem
inicial do ofício de canteiro na região de Lisboa, um tirocínio com Emídio
Amatucci e uma formação escolar que lhe permitiu o acesso a outro tipo
de informação visual e um maior contacto com outros artistas
industriais. Esta tripla formação será visível em toda a sua obra,
sobretudo nos seus primeiros anos com oficina própria. A
abertura da oficina de mármores
António Almeida da Costa terá permanecido na oficina de Emídio
Amatucci cerca de seis ou sete anos. Emídio Amatucci foi até uma das
testemunhas do seu casamento com Emília de Jesus Maria, em 1855.
Porém, já casado e com uma formação escolar aplicada concluída, não
demorou muito tempo até que António Almeida da Costa se desvinculasse de Emídio
Amatucci, para abrir a sua própria oficina, uma vez que o mercado dos mármores
estava em franco crescimento no Porto. Em 1858, António Almeida da Costa anunciava
num jornal que acabava de se estabelecer na Rua do Laranjal, n.º 68, onde
se prontificava a fazer todo o tipo de obras em mármore e granito com a maior
presteza e esmero por preços cómodos e razoáveis. Na
primeira fase da sua vida oficinal, António Almeida da Costa terá realizado
sobretudo obras de monumentos sepulcrais. É possível atribuir aos primeiros três
ou quatro anos da sua oficina mausoléus no Cemitério da Lapa (Porto), no Cemitério
do Prado do Repouso (Porto), no Cemitério de Chaves, no Cemitério de Valongo
(região do Porto) e no Cemitério de Ovar (região de Aveiro).
Algumas obras foram encomendadas por
eminentes figuras da sociedade ou por prestigiadas instituições do
Porto, as quais lançaram António Almeida da Costa como mais um dos
protagonistas da cena artística portuense. Exemplos disso são a
encomenda, por parte da Santa Casa da Misericórdia do Porto em 1860-1862,
de quatro bustos de importantes benfeitores e a capela do Visconde de Pereira Machado, no
Cemitério da Lapa, executada em 1861. Quer
através do estudo já levado a cabo por Francisco Queiroz, quer pela nossa própria
observação, conclui-se facilmente um facto importante para percebermos a
personalidade de António Almeida da Costa: este artista adaptava-se a qualquer
tipo de obra e de material, bem como recorria, quer a soluções já
utilizadas pela sua oficina mestra (de Emídio Amatucci), quer a soluções
inovadoras, mantendo sempre um equilíbrio estético entre ambas. Por estas razões,
António Almeida da Costa viria a liderar o mercado de monumentos sepulcrais em pedra mármore
no Porto durante a década de 1880. A sua crescente concentração fabril
horizontal e o auxílio de José Joaquim Teixeira Lopes na modelação
consolidaram cada vez mais a sua posição como o melhor canteiro do
Porto. Contrariando a
generalidade da pouca bibliografia existente sobre António Almeida da
Costa e José Joaquim Teixeira Lopes, estes dois artistas já colaboravam em
diversas obras muito antes da fundação da Fábrica de Cerâmica das
Devesas, sendo o caso do monumento a D. Pedro V disso paradigmático.
A fundação
da Fábrica de Cerâmica das Devesas
Ainda hoje existem dúvidas quanto à forma como foi fundada esta fábrica de cerâmica. A bibliografia mais antiga existente sobre o assunto não só hipertrofia o papel de António Almeida da Costa como seu mero mentor industrial, como também refere que António Almeida da Costa terá entrado na sociedade a posteriori, atribuindo a José Joaquim Teixeira Lopes toda a responsabilidade artística, assim como o papel de ideólogo inicial da fábrica. Porém, a realidade não terá sido exactamente essa. Não encontrámos qualquer documentação que confirmasse a data
oficial de
1865 como a da fundação. Encontrámos, sim, referência a algumas das sociedades onde
António Almeida da Costa esteve envolvido. Entre Junho de 1864 e Maio de 1866
António Almeida da Costa esteve associado a João Bernardo de Almeida com
o fim de produzirem e venderem cal. Estavam já instalados em parte do que viria
a ser o quarteirão norte da Fábrica de Cerâmica das Devesas. No mesmo
dia da dissolução da sociedade, António Almeida da Costa adquire a
parte de João Bernardo de Almeida e este último adquire de prazo um terreno ao
lado, no mesmo quarteirão norte. A
próxima sociedade a ser constituída – sob a firma Costa & Breda
– tinha por fim a produção e comercialização de materiais
de construção, nomeadamente telha. Existiu entre Julho de 1867 e Março
de 1870. Durando um pouco menos tempo – de Dezembro de 1867 a Março de
1870 – a sociedade Costa, Breda & Teixeira Lopes dedicava-se em simultâneo
(e no mesmo local) à
produção artística, contando com o talento de José Joaquim Teixeira Lopes. Quatro
meses após a dissolução da sociedade entre António Almeida da Costa, Bernardo José
da Costa Soares Breda e José Joaquim Teixeira Lopes, em Julho de 1870, António
Almeida da Costa legaliza o seu estabelecimento fabril de obras artísticas em
cerâmica, situado no quarteirão a norte da Rua Conselheiro Veloso da
Cruz. Uma
nova sociedade surge em Julho de 1874, entre António Almeida da Costa, José
Joaquim Teixeira Lopes e Feliciano Rodrigues da Rocha (conterrâneo de António
Almeida da Costa, canteiro e seu antigo colaborador), sociedade esta que se
prolonga até Fevereiro de 1880 e à qual competia dirigir, quer o
estabelecimento nas Devesas quer a oficina de mármores no Porto. No mesmo ano
de 1880, António Almeida da Costa constituiu-se em sociedade com Feliciano
Rodrigues da Rocha, com o fim de dirigir apenas a oficina de mármores. Esta
sociedade prolonga-se até 1903. No
mesmo dia da escritura de Julho de 1874, António Almeida da Costa e sua mulher,
Emília de Jesus Costa, arrendam à sociedade os terrenos e a fábrica das
Devesas que ficavam do lado norte, assim como um barracão a sul e
terrenos contíguos. Ora, apesar de não termos provas documentais, António
Almeida da Costa já teria alguns direitos sobre estes terrenos no quarteirão
sul desde Abril de 1869, data em que o seu sogro Silvestre de Macedo, do Porto,
comprou aí terrenos. De
uma forma bastante resumida, pudemos demonstrar que António Almeida da Costa teve um
papel bem mais relevante na constituição da Fábrica de Cerâmica das
Devesas do que aquele que até aqui se supunha. Razões
do sucesso do complexo fabril das Devesas
O
complexo industrial das Devesas foi, numa primeira fase, uma extensão
da oficina de cantarias da antiga Rua do Laranjal. Por exemplo, as capelas funerárias
construídas na oficina eram ornadas com vasos em cerâmica saídos da fábrica.
Porém, se ao princípio as esculturas ou vasos eram feitos em cantaria, foram
sendo produzidos, progressivamente, em cerâmica, uma vez que tal processo
possibilitava a produção em larga escala. A
partir da criação da secção de fundição no seu complexo
fabril, entre 1881 e 1884, António Almeida da Costa passou a ser o único
industrial do Porto com capacidade para construir uma capela sepulcral com acessórios
inteiramente produzidos nas suas oficinas. Esta passava a ser uma grande
vantagem de António Almeida da Costa relativamente aos seus concorrentes, pois
todas as oficinas do seu complexo fabril promoviam-se mutuamente, funcionando
como uma concentração horizontal – a primeira e a maior que alguma
vez existiu em Portugal em termos de artes industriais. O
esquema de concentração fabril produziu os seus frutos, permitindo a
Almeida Costa amealhar uma bela fortuna e afirmar o seu empreendimento como um
dos mais bem sucedidos da Península Ibérica. Porém, não foi apenas a
estratégia de concentração empresarial um dos seus grandes méritos,
mas também os seguintes factores: a associação entre a arte e a indústria;
a habilidade empresarial; a boa qualidade do equipamento industrial e o bom
aproveitamento do caminho de ferro. Apesar
de António Almeida da Costa contar com mestres de elevada qualidade artística
e de excelente capacidade técnica nas suas oficinas – como João
José da Fonseca, mestre cerâmico – não descurou a formação
dos seus empregados em desenho aplicado à indústria. Para isso, possuía
uma escola de desenho e modelação nas instalações da própria fábrica.
Se, por um lado, havia bons artífices na Fábrica de Cerâmica das Devesas,
desenhadores e modeladores, por outro, também os modelos para os produtos eram
muito bons e variados, até porque António Almeida da Costa compreendia
perfeitamente que só assim a fábrica se poderia distinguir das restantes. Ora,
muitos destes modelos passaram à pedra, à cerâmica ou ao ferro,
constando igualmente nos catálogos feitos para o grande público. No catálogo
de 1910, aparecem para cima de mil peças: bustos, estátuas, grupos, louça
sanitária, estuques, materiais de construção, artigos em grés,
canalizações, mosaico hidráulico, azulejo, serralharia, fundição
e cantarias. Para além de tudo isto, a Fábrica de Cerâmica das Devesas
fabricava qualquer tipo de peça nas áreas supramencionadas. De facto, ao longo
de toda a sua actividade, António Almeida da Costa procurou adaptar-se sempre
ao gosto dos encomendadores, tornando-se evidente a sua versatilidade. Os
catálogos da Fábrica das Devesas serviam, pois, como forma de publicitar a sua
produção. Porém, a publicidade também se baseou na presença em exposições
nacionais e internacionais, onde a fábrica obteve várias medalhas e elogios, nomeadamente uma
medalha de prata na célebre Exposição Universal de Paris, em 1900. Em
1899 deu-se início à construção de um magnífico edifício
neomourisco que servia de depósito e exposição de produtos no Porto (na
actual Rua José Falcão e Rua da Conceição). Os edifícios das
Devesas foram também reformados e ornados no início do século XX, levando
numerosas peças cerâmicas saídas da fábrica, que funcionavam como um
verdadeiro mostruário ao ar livre. O bairro operário tinha também as casas
completamente revestidas de azulejos, todos de padrões diferentes, como
ainda hoje se pode ver. Desde o início que António Almeida da Costa demonstrou ser um homem polivalente, dedicando-se a diversas áreas: ao desenho, à modelação e à execução de obras. Além disso, tomava facilmente de empreitada construções de qualquer carácter, mesmo em áreas artísticas onde não possuía experiência. A sua habilidade e perspicácia empresarial também o levaram mais longe, ao permitirem que produzisse aquilo que o mercado queria antes que outros o fizessem. Exemplo disso mesmo foi a sua aposta na telha de Marselha, sendo que até a produziu com melhores resultados do que a original. Adaptou-se facilmente às mudanças de gosto e também soube utilizar muito bem a publicidade, com uma estratégia comercial agressiva mas convincente.
Para
que todo este esquema funcionasse, António Almeida da Costa implementou um
eficaz sistema de escoamento dos produtos, através da instalação da Fábrica
das Devesas e de uma sucursal na Pampilhosa do Botão, junto a importantes
estações de caminho de ferro. A obtenção de matérias primas
baseou-se, em muito, no transporte ferroviário, já que a sucursal na
Pampilhosa pretendia ser também um local de recolha de barro, que era
facilmente transportado para as Devesas. António Almeida da Costa implementou
ainda uma vasta rede de depósitos pelo país, estendendo a sua teia ao Rio de
Janeiro e colocando à frente destes depósitos pessoas da sua confiança,
como no caso do depósito em Lisboa, entregue ao filho do mestre cerâmico João
José da Fonseca – o escultor João Carlos da Fonseca. A qualidade do equipamento industrial da Fábrica das Devesas era igualmente digna de nota, havendo mesmo algumas máquinas inventadas pelos mestres fabris. Os próprios edifícios fabris não eram excessivamente acanhados, ao contrário do que sucedia com quase todas as indústrias da época.
A preservação destas estruturas fabris é
extremamente importante para o estudo
e compreensão da indústria cerâmica e de fundição em Portugal:
uma parte importante da própria História da Arquitectura e da Escultura
Portuguesa do século XIX e do início do século XX está nas Devesas. Injustamente
relacionada com o fim da cerâmica artística e o início da cerâmica
industrial, a Fábrica de Cerâmica das Devesas não foi mais do que a
ponte entre as duas realidades, tendo tido o melhor das duas vertentes. Por essa
razão, o complexo fabril das Devesas e as peças que produziu constituem
o mais importante legado cerâmico hoje existente em Portugal. Torna-se, pois,
muito importante fazer a respectiva inventariação. Porém, um inventário
não preenche todos os requisitos de preservação. É preciso ir
mais além, através da recolha de peças que estejam em risco, tratamento
conservativo, exposição e sua divulgação ao público. Só assim
este último tomará consciência do seu valor e, consequentemente da
importância da sua preservação. Tudo isto seria mais exequível com a
criação de um Museu Nacional das Artes Industriais no próprio complexo fabril
das Devesas, cuja musealização está prevista há já duas décadas, sem
que nada tenha sido concretizado. Não se faz ainda ideia do que existirá por debaixo das camadas
de enchimento no quarteirão sul do complexo fabril nas Devesas
(sobretudo), sendo
provável que a sua escavação arqueológica sistemática venha a revelar
o processo evolutivo da produção da fábrica, recuando até às peças
mais antigas, podendo ser talvez encontradas peças interessantes e raras para
estudo e para exposição. A própria escavação da zona das
antigas barreiras poderá dar informações preciosas sobre a produção
da fábrica e a qualidade dos materiais utilizados ao longo da história da
mesma, através de depósitos diferenciados por camadas. O
princípio da precaução – tratando-se de um complexo fabril
importantíssimo ainda não devidamente estudado, o qual virá certamente
a revelar muitas surpresas – e o princípio da preservação de um
património arquitectónico que é a coroa da arqueologia industrial em Vila
Nova de Gaia, devem ser respeitados antes de se tomar qualquer decisão
quanto ao destino a dar a todos estes edifícios fabris e, sobretudo ao quarteirão
sul da fábrica, decisão essa que terá de ter sempre em conta o destino
a dar a cada um deles e à própria envolvente dos mesmos.
O
conturbado processo de classificação do complexo fabril das Devesas
O processo de classificação do complexo fabril das Devesas por parte do
IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico) prolonga-se há
mais de vinte anos e ainda não se vislumbra um fim definido. Foram vinte
anos de algumas boas vontades, mas sobretudo de abandono, delapidação,
inércia, ignorância e burocracia, colocando em causa aquele que é um dos
melhores exemplos de património industrial em Portugal. O
problemático processo de classificação da Fábrica de Cerâmica das
Devesas iniciou-se de forma tímida, numa época em que a consciencialização
da sociedade portuguesa para o valor do património arquitectónico era ténue,
ainda para mais tratando-se de uma fábrica, em diminuta laboração na
altura. A iniciativa coube ao então Vereador da Cultura da Câmara
Municipal de Vila Nova de Gaia que, em sessão de 9 de Janeiro de 1983,
propôs a classificação dos painéis de azulejo sitos no muro do
quarteirão sul da Fábrica das Devesas como de Interesse Público, no
sentido da preservação dos mesmos. Tendo sido aprovada a sua classificação,
o mesmo vereador apresentou uma nova proposta em sessão de 17 de Setembro
de 1984, desta vez relativamente ao edifício fabril (depreendendo-se que seja o núcleo
a norte), recheio e antigo bairro dos operários da Fábrica das Devesas. A
proposta previa igualmente a classificação do conjunto como de Interesse
Público, tendo a vereação aprovado a sua classificação. Em
20 de Outubro de 1984, "O Primeiro de Janeiro" noticiava que na antiga
Fábrica de Cerâmica das Devesas iria situar-se um museu de cerâmica. Segundo
o mesmo periódico, o vereador Barbosa da Costa havia proposto à Câmara Municipal
de Vila Nova de Gaia que nesse museu de cerâmica viesse a existir uma
escola-oficina, de maneira a preservar a actividade da Fábrica de Cerâmica das
Devesas. O museu contaria com o apoio científico da Escola Secundária Soares
dos Reis e de outras instituições da indústria cerâmica. No museu
seriam incorporadas peças, moldes, matrizes e documentação das 17 fábricas
cerâmicas que existiram em Gaia e também do Grande Porto. Algumas
partes da Fábrica de Cerâmica das Devesas estavam sem uso e outras estavam, já
na época, ocupadas por uma oficina de automóveis, a qual ainda se mantêm.
O então vereador da cultura afirmava - com razão - que não se fazia ideia do "império
cultural" que aquela fábrica criara e que o museu apenas poderia dar
disso "uma simples imagem". Passadas algumas semanas sobre o anterior artigo, vem de novo à imprensa uma notícia sobre a Fábrica de Cerâmica das Devesas, em 3 de Novembro de 1984, na qual o então director da Companhia de Cerâmica das Devesas, Mendes de Carvalho afirmava não entender o súbito interesse da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em recuperar a fábrica. Aliás, no ano anterior, a mesma autarquia alegadamente não se havia preocupado com o perigo de ruína de um muro que continha diversos padrões de azulejo e que, por isso, era considerado como um muro-mostruário. Depois
de vários incidentes entre o Pelouro da Cultura e o director da Companhia de
Cerâmica das Devesas, este último não terá ficado nada satisfeito com a atitude
da autarquia de Gaia, sobretudo pelo facto de ter vindo a público com
projectos, sem primeiro falar com a Direcção da Companhia.
Estes acontecimentos foram de tal forma marcantes, que ainda hoje têm
repercussões negativas para a salvaguarda da Fábrica de Cerâmica das
Devesas. Em 1985 houve uma visita ao muro-mostruário por parte de um especialista
em azulejo, Rafael Salinas Calado, juntamente com o vereador Barbosa da Costa e
com a então conservadora da Casa Museu Teixeira Lopes (Gaia). Concluiu-se
ser "imprescindível" a
classificação dos mesmos painéis de azulejo. Passado cerca de um ano, em 27 de Junho de 1986, Joaquim Gonçalves
Guimarães informava o I.P.P.C. (Instituto Português do Património
Cultural, posterior I.P.P.A.R.) que o complexo fabril das Devesas era uma área complementar à
do centro histórico de Vila Nova de Gaia, tendo dado o seu parecer favorável,
enquanto responsável pelo Gabinete de História e Arqueologia da Câmara
Municipal de Gaia, quanto à classificação do "conjunto
único e exemplar como um todo"
e não apenas o muro-mostruário. Juntamente a este ofício,
anexava um breve relatório sobre o estado de conservação dos edifícios
que considerava relevantes para a classificação: muro-mostruário; armazéns
gerais, oficinas e escritório; palacete de António Almeida da Costa; asilo; o
edifício azulejado da Rua Visconde das Devesas; a casa dos contramestres e o
bairro dos operários. Cerca de um mês mais tarde, em 24 de Julho, a Arquitecta Fátima
Ferreira, do I.P.P.C., solicitava à Câmara Municipal de Gaia o envio de
documentação fotográfica referente aos interiores dos edifícios e
vistas gerais de todo o conjunto, para as mesmas acompanharem o processo de
classificação que iria ser analisado pelo Conselho Consultivo do I.P.P.C..
Este pedido foi renovado em 11 de Agosto de 1986 pelo Presidente do I.P.P.C.
– João Palma Ferreira. Porém, ao que parece, o pedido deveria ter
sido feito ao Gabinete de História e Arqueologia da mesma Câmara e, talvez por
essa razão, em 12 de Março de 1987 o I.P.P.C. ainda não tinha
recebido qualquer documentação. Em 18 de Abril de 1988, a Fábrica de Cerâmica das Devesas volta de novo à ribalta pelas mãos da imprensa: "«Cerâmica» das Devesas condenada à ruína?". A notícia começa por informar que, depois da fábrica fechar, várias empresas e um jardim de infância se tinham instalado em algumas partes da mesma, através de arrendamento. Relativamente à questão da sua musealização, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, através do vereador Barbosa da Costa, dava conta que há alguns anos atrás havia contactado a Companhia de Cerâmica das Devesas para se fazer ali um "museu vivo da cerâmica". Porém, a Companhia tinha recusado, não tendo sido possível assinar o protocolo em que a autarquia se propunha a fazer ali as obras necessárias. Sendo assim, não era possível fazer o dito museu. Um dos membros da Direcção da Companhia de Cerâmica das Devesas, Teresa Mendes de Carvalho, rebatia, dizendo que a Câmara Municipal de Gaia nunca lhes havia proposto fazer ali um museu. Passados cerca de seis anos desde o início do processo, em 21 de
Setembro de 1989, um técnico do I.P.P.C. – Miguel de Araújo Leão
– refere, em ofício, a necessidade de classificar e delimitar uma zona
especial de protecção. Porém, em 31 de Outubro do mesmo ano, a Câmara
Municipal de Gaia estava a apreciar a viabilidade de construção de um
loteamento no local, o qual supõe-se ter relação com um outro já
pretendido em 1983. Em
22 de Fevereiro de 1990, a imprensa noticiava: "Fábrica de Cerâmica
das Devesas ainda espera ser museu". Esta notícia vinha a propósito
de um seminário internacional sobre a produção cerâmica, o qual iria
decorrer em Gaia entre Julho e Setembro de 1990 e do qual se esperava a
clarificação de "muita coisa". No opúsculo do seminário
já se propunha a criação do "museu nacional e internacional de
cerâmica". Ora, passados oito meses sobre esta notícia, é apresentado em 20 de
Outubro de 1990 na Assembleia da República um projecto-lei visando a criação
de um museu de cerâmica nas instalações da Fábrica das Devesas, através
da vereadora Ilda Figueiredo, o qual não foi aprovado. Em 20 de Dezembro de 1990, quando o Conselho
Consultivo do I.P.P.C., em Lisboa, se pronunciou quanto à classificação
do complexo fabril das Devesas: é colocado em primeiro lugar - em termos de arquitectura
industrial - um outro conjunto fabril cerâmico, o da
Vista Alegre. Ainda assim, considerava-se já que a Fábrica
das Devesas mantinha igualmente todos os elementos constitutivos de origem e
crescimento, sendo estes testemunhos físicos do que foi essa era industrial. O
Conselho Consultivo do I.P.P.C. afirmava ainda que se tratava de um pedido de
classificação pouco vulgar dada a sua importância e o facto de ser uma área apetecível para
lotear. Referia-se também a
relevância de António Almeida da Costa e de José Joaquim Teixeira Lopes para
a História e para a Arte portuguesas, através da sua actividade fabril, dos
catálogos, da expansão que alcançaram, dos seus conhecimentos e
reconhecimento nacional e internacional, mesmo não sendo necessário
referir todos estes factos para a classificação do complexo fabril, que
já valia por si só.
Sendo assim, o Conselho Consultivo emitia um parecer favorável à
classificação do complexo fabril das Devesas. Aparentemente,
mesmo com considerável atraso, o processo parecia estar no bom caminho.
Contudo, em inícios de 1991, o I.P.P.C. chama a atenção para a
necessidade de ouvir a opinião dos proprietários, de acordo com a antiga
Lei do Património 13/85, que - note-se - nunca foi regulamentada. Entretanto, em 27 de Fevereiro de 1991, a Arquitecta Isabel Sereno, técnica
do I.P.P.C. no Porto, requer a inclusão no processo de classificação
do antigo depósito da Fábrica
de Cerâmica das Devesas no Porto e do respectivo tecto do salão de
exposições. Com a extinção do I.P.P.C. e a criação do I.P.P.A.R, dá-se um hiato de oito anos em que nada acontece de positivo para o processo, acentuando-se a degradação do complexo fabril. Em
1 de Julho de 1999, publica-se o edital n.º
10/99 de 12 de Maio de 1999, da Câmara Municipal do Porto, no qual se tornava público
que, por despacho do Vice-Presidente do I.P.P.A.R., datado de 14 de Abril de
1999, havia sido confirmado o despacho de 15 de Janeiro de 1991, respeitante
à abertura do processo de instrução relativo à eventual
classificação do conjunto das Devesas, incluindo-se o depósito no Porto. Entretanto, desde há vários anos que uma empresa imobiliária constituída para o efeito pretendia lotear o quarteirão sul da antiga fábrica das Devesas. Ora, de acordo com a legislação portuguesa em vigor, seria necessário proceder a sondagens arqueológicas em todos os locais em vias de classificação, as quais teriam de ser custeadas pelo promotor. Parte da lei foi parcialmente cumprida: em finais de 2002 iniciaram-se sondagens preliminares, tendo-se procedido à limpeza do terreno. Porém, intervenções arqueológicas numa amplitude tão grande como a do quarteirão sul das Devesas e num complexo tão importante, impunham sólidos estudos prévios. Este facto não se verificou e não mereceu a devida atenção, quer por parte dos organismos públicos que tutelam este Património, quer por parte da empresa de arqueologia encarregada das sondagens. Se tal preocupação tivesse existido, as primeiras sondagens arqueológicas realizadas no quarteirão sul da Fábrica de Cerâmica das Devesas teriam sido mais profícuas e convenientemente direccionadas para os locais que potencialmente dariam resultados mais relevantes, numa primeira fase. Refira-se que o forno de sistema francês, construído em granito e em tijolo maciço, e a plataforma granítica de assentamento da oficina de serralharia e fundição foram "descobertos" por mero acaso, quando estavam claramente referenciados em plantas antigas que encontrámos no decorrer da nossa investigação. Evitar-se-ia facilmente o facto da retro-escavadora ter provocado o aluimento de parte deste forno, devido ao peso que a mesma exerceu.
Mesmo assim, estas sondagens arqueológicas contribuíram para o conhecimento de novos dados que não estavam incluídos na documentação escrita que foi por nós consultada até à data. Além disso, as sondagens vieram esclarecer algumas questões inicialmente duvidosas e reforçar ainda mais a importância histórica, artística e industrial deste complexo fabril. Pôde-se confirmar que o núcleo sul das Devesas inclui ainda estruturas arquitectónicas que certamente serão únicas no país, sobretudo pela sua articulação e quantidade e num espaço bem delimitado. Apesar de
terem sido realizadas sondagens arqueológicas, a manipulação dos
resultados e o risco de aprovação do projecto imobiliário sobre bases
falsas, levou a que um grupo de pessoas se tenha movimentado de modo a salvar o
quarteirão sul do complexo fabril da destruição. Num manifesto, solicitava-se a prossecução
dos estudos arqueológicos, de modo a recuperar o máximo que fosse possível de
espólio e a fundamentar melhor um processo de reabilitação urbanística
do espaço. Acompanhando o referido manifesto, ia um abaixo-assinado realizado
entre Fevereiro e Março de 2003, subscrito por um número considerável de
investigadores, arqueólogos, historiadores, museólogos e gente da cultura em
geral. Nos meses que se seguiram, foram igualmente publicados alguns artigos em
jornais nacionais sobre o valor patrimonial da Fábrica das Devesas e a urgência
da sua salvaguarda. A par destas iniciativas, decorreram várias visitas ao complexo fabril,
nomeadamente ao núcleo norte e sul, onde estiveram presentes representantes do
I.P.P.A.R., do I.P.A. (Instituto Português de Arqueologia), da Câmara
Municipal de Gaia, investigadores, arqueólogos, etc.. Foi, inclusivamente,
elaborado um parecer sobre o valor patrimonial da fábrica para acompanhar uma
proposta de classificação como Monumento Nacional e um pedido de
inventariação, solicitado por parte da Prof. Doutora Lúcia Rosas
enquanto coordenadora do Seminário de Património e Restauro do Mestrado em
História da Arte em Portugal e orientadora do nosso Mestrado. Foi igualmente
enviado um ofício, com a data de 12 de Março de 2003, por parte do
Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras
da Universidade do Porto, manifestando a sua posição em favor da
continuação das sondagens arqueológicas e chamando a atenção
para o facto de que qualquer decisão relativa ao destino a dar ao
complexo fabril das Devesas ter de ser devidamente fundamentada, havendo sempre
em vista a sua preservação e musealização, dado o seu elevadíssimo
valor patrimonial. O
projecto de loteamento e urbanização
para o quarteirão sul foi elaborado apenas com conhecimento das
estruturas visíveis por entre o então existente matagal, ou seja, antes das sondagens arqueológicas. Após as mesmas, o projecto veio a
revelar-se incongruente e obsoleto. Por
aquilo que conhecemos do projecto, apesar de se
notar uma preocupação com a manutenção de certos alinhamentos e
com a interdição de acesso automóvel a alguns espaços mais sensíveis
no interior do quarteirão, a verdade é que o mesmo enferma de alguns
pressupostos que fazem dele um projecto em nada apropriado para aquele local,
pois parte do princípio que só existe valor
patrimonial nas estruturas arquitectónicas ainda de pé, quando o subsolo de
todo o complexo fabril possui estruturas muito interessantes (cisternas, túneis,
fornos) que seriam, assim, destruídas e sem qualquer tipo de estudo. O
projecto de urbanização não apresenta critérios objectivos para
a manutenção de determinadas estruturas arquitectónicas e a demolição
de outras que ainda se encontram de pé. Ora, não é sensato que um
projecto para uma zona tão sensível, classificada de interesse público
pela Câmara Municipal de Gaia e com processo de classificação pendente
no IPPAR, seja discricionário, não incluindo o parecer externo de
reconhecidos especialistas em arqueologia industrial e/ou em história da arte. O
projecto de urbanização não pretende, pois, valorizar aquela
zona, mas simplesmente corresponder ao objectivo de lucro por parte do promotor,
que virá a ser o único beneficiado de um património que pertence a todos.
Para além de destruir o património arquitectónico do concelho e do país, amputa a
leitura de todo o complexo fabril, retirando valor às estruturas
arquitectónicas confinantes, sobretudo ao palacete do fundador, às casas
dos operários e também ao quarteirão norte da fábrica. Ora, a
concretização do projecto de urbanização para o quarteirão
sul implicará destruir valências que dariam ao futuro museu todo o
sentido (como o túnel de ligação entre os dois quarteirões
– que o projecto de urbanização ignora, como ignora outras
estruturas). Em suma, tendo em conta a localização do complexo fabril
das Devesas e o seu potencial em termos de variedade e de importância das
estruturas arquitectónicas construídas, o projecto de urbanização
previsto para o quarteirão sul é fraco nos pressupostos e equivocado nas
soluções apontadas, constituindo um verdadeiro plano de destruição
patrimonial gratuita. O referido projecto serve apenas um interesse privado
concreto e nada trará de proveitoso para o interesse público, quer em termos
de reabilitação urbana da zona, quer em termos da salvaguarda e valorização
do antigo complexo fabril. De
facto, não é possível entender o núcleo sul como elemento isolado. Há
que realçar o extremo interesse do antigo complexo fabril como um todo, pois
contém - articuladamente - vários antigos equipamentos fabris. Além disso, realçamos
também a posição privilegiada do referido complexo num espaço
confinante com o centro histórico, junto à estação de caminho de
ferro, no eixo viário de acesso à actual Câmara Municipal, passando
pela Casa Museu Teixeira Lopes e pelo futuro arquivo histórico. Encontra-se,
pois, numa situação
bastante privilegiada e seria conveniente destinar a um fim nobre e compatível
todas as estruturas arquitectónicas deste complexo que não venham
eventualmente a
funcionar como museu no sentido tradicional. A Fábrica de Cerâmica das Devesas foi a mãe de todas as fábricas de cerâmica modernas no norte e centro de Portugal. Ora, se Gaia é considerada terra da cerâmica, faz todo o sentido aproveitar o potencial desta fábrica, realçando a própria identidade de uma região e de um concelho. Note-se que a Fábrica de Cerâmica de Jerónimo Pereira Campos & Filhos, em Aveiro, mesmo sendo cópia em menor escala, com menos história e com menor qualidade que a Fábrica de Cerâmica das Devesas, foi recuperada pela respectiva autarquia e junto a ela está a surgir hoje o novo centro cívico de Aveiro. No caso da Empresa Industrial de Ermesinde, mesmo estando em ruínas e sendo Ermesinde um subúrbio que nem sequer é cabeça de concelho, foi ali instalado um fórum cultural, aproveitando-se a antiga fábrica de cerâmica para galeria de arte, desafogada por um parque ajardinado. Mais recentemente, uma outra fábrica que corresponde à identidade da cidade e onde serão instalados os novos paços do concelho, é a Fábrica Robinson em Portalegre. Até uma pequena fábrica de cerâmica junto à estação de Oliveira do Bairro tem já projecto para um museu da olaria e do grés. Ora, estas fábricas de cerâmica, sendo "cópias" do modelo da Fábrica de Cerâmica das Devesas, nem sequer possuem as estruturas que as Devesas ainda mantêm. Se outros assim o fizeram com muito menos, seria um erro gravíssimo se o modelo – a Fábrica de Cerâmica das Devesas – não fosse aproveitado e preservado de uma forma ainda mais consistente e assumida. O
conjunto edificado do complexo fabril das Devesas proposto para classificação
como Monumento Nacional em 2003 integra todos os bens imóveis ainda existentes em
Gaia, no Porto e na Pampilhosa. Actualmente, e como consequência das iniciativas anteriormente
mencionadas, supõe-se que alguns aspectos do projecto imobiliário foram
alterados por imposição do I.P.P.A.R. e que está prevista a continuação das
sondagens arqueológicas. Porém, existem algumas questões importantes
relativas a este processo que deixam antever um fim inglório para o quarteirão
sul da Fábrica de Cerâmica das Devesas. Por razões de discrição,
dado que o processo é bastante sensível e continua sem fim à vista, não nos poderemos debruçar sobre as
mesmas. Ainda assim, podemos registar aqui os desenvolvimentos mais recentes
neste
processo. Após
as várias diligências sob a forma de ofícios, pareceres, telefonemas e
artigos na imprensa, recebemos um ofício do I.P.P.A.R., datado de 20 de Agosto
de 2003, no qual éramos informados que o mesmo instituto estava a desenvolver
"as diligências de natureza processual inerentes à
«fase de abertura e audição do processo», após o que
prosseguirá para a «fase de fundamentação técnica»".
O teor deste oficio leva-nos a questionar se algo terá realmente evoluído
– para além da constante e lenta delapidação do complexo fabril a classificar
– ao longo dos vários anos que mediaram entre a (muito tardia) abertura
oficial do processo e a
actual situação de impasse. Actualmente, todo o processo continua parado
e sem sinais de que voltem sequer a ser feitas mais sondagens arqueológicas. O
antigo complexo fabril continua votado ao
abandono, estando o quarteirão
sul em avançada ruína e já deixado novamente ao medrar das silvas...
Conclusão
O
complexo fabril das Devesas, como projecto museológico, é interessante
sobretudo pelas estruturas e pela sua articulação entre si. Em termos de
espólio, dada a sua vastidão, importância e interesse, julgamos que
pode não ser suficiente apenas a utilização do quarteirão
norte para a sua exposição, para as reservas, para acolhimento de
visitantes e serviços de conservação, investigação e administração
de um futuro museu que equivalha à importância do complexo. Assim, as estruturas preservadas do quarteirão sul
também poderiam, em parte, albergar esses serviços e, noutra parte, servir
para equipamento público compatível com o museu. Um jardim urbano seria a opção
mais clássica e, para alguns, seria mesmo a ideal. Porém, para além de ser
dispendiosa – uma vez que traz pouco retorno a quem investe, é também
passível de fracasso em termos urbanísticos, se a envolvente continuar com a
mesma função residencial pouco qualificada que hoje tem. Assim, esta opção
de converter o quarteirão sul parcialmente em jardim, deixando intactas
as estruturas arquitectónicas da antiga fábrica para usufruto por parte dos
visitantes do museu ou para usufruto de não visitantes (como parque público),
teria de ser complementada com uma requalificação das áreas confinantes
a sul e sudoeste (sobretudo), de modo a que este parque não se
convertesse num espaço suburbano vazio e inseguro. Mesmo que este parque fosse
fechado, aberto apenas durante o dia, seria necessário atrair valências
para o local, de modo a que este tivesse uma utilização regular e isso
impedisse o seu abandono e vandalização. Esta
opção pelo museu mais jardim pode ser também uma opção algo
redutora. De facto, a ideia que se lançou há vários anos de um museu da cerâmica
para aquele local deve ser alargada para um Museu Nacional das Artes
Industriais, pois
foi a produção simultânea de várias formas artísticas que impulsionou
a Fábrica das Devesas para o sucesso. Aliás, António Almeida da Costa
escolheu um emblema alusivo à união entre a Arte e a Indústria
para representar o seu complexo fabril, quer nas fachadas de vários edifícios
fabris (Devesas, Porto e Pampilhosa), quer no catálogo de 1910. Abrindo-se o
leque temático do projecto museológico, seria possível obter mais espólio e
mais apoios, reduzindo custos e viabilizando ainda mais a criação do
museu. Por outro lado, não existindo ainda um museu das artes industriais
em Portugal, este projecto museológico nas Devesas passaria a ser original e único,
ultrapassando facilmente o carácter regional, para se tornar num museu nacional
e internacional, no que certamente iria ainda diminuir mais o ónus da sua manutenção. Uma
outra hipótese também interessante para o futuro museu nacional das artes
industriais, que minoraria em muito os custos, dando também uma mais-valia ao
futuro espaço museológico, seria a elaboração de um protocolo com
alguma oficina de cerâmica, das várias que existem em Gaia, para se instalar
no local e fazer uso de várias partes do complexo fabril, de modo a que os
visitantes pudessem apreciar aspectos de laboração (um pouco como sucede
com o museu da Fábrica Vista Alegre). Com a consciencialização da
importância do azulejo nas fachadas, por exemplo, o mercado de produção
de azulejo de substituição está a sofrer um grande aumento, que será
certamente ainda mais sentido nos próximos anos. As Devesas poderiam dedicar-se
a esse nicho de mercado, cumprindo uma dupla função de museu e de indústria
activa. Um pouco na continuação daquilo que foi a Fábrica de Cerâmica
das Devesas, parte do espaço que este complexo ocupa poderia também albergar
uma instituição de carácter educativo na área da cerâmica e do ferro.
Estar-se-ia pois, a fomentar o desenvolvimento de capacidades com base no melhor
exemplo de produção nas artes industriais, uma vez que o espólio da própria
fábrica não estaria apenas arrumado numa prateleira mas serviria,
certamente, de inspiração e modelo. Em suma, o quarteirão sul da antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas poderá servir para muitas funções, desde que sejam respeitados os vários pressupostos já enunciados, pressupostos esses que não são tão limitadores como podem parecer. O complexo fabril das Devesas merece bem melhor do que o projecto que está previsto para o quarteirão sul e a Câmara Municipal de Gaia e o I.P.P.A.R. deveriam saber aproveitar o enorme potencial ali existente. Assim, antes de tudo, é necessário não deixar danificar ainda mais o que lá existe, conhecer melhor o que está escondido debaixo do solo e adquirir os terrenos com base numa ideia concreta para o local, sempre com o propósito de salvaguardar este Património para os vindouros, aliando o útil ao prático e dando uma nova utilização àquilo que hoje são edifícios abandonados, sem descaracterizar as estruturas. Tudo isso é hoje possível com um pouco de engenho e boa vontade.
Por último, refira-se que o que resta das restantes antigas fábricas de cerâmica em Gaia está em situação semelhante, senão mesmo pior, o que pode ajudar a perceber até que ponto a falta de visão e de vontade política de sucessivos executivos autárquicos é factor preponderante no arrastar dos processos de classificação, salvaguarda e valorização do Património fabril. Aliás, tendo em conta tudo o que já foi relatado, a Câmara Municipal de Gaia - agindo de boa fé - nunca deveria ter permitido sequer a aprovação de um loteamento para uma área em vias de classificação (quarteirão sul das Devesas), a qual tinha sido já classificada em parte pela própria autarquia!
Antiga Fábrica Pereira Valente (descaracterizada)
Antiga Fábrica de Santo António do Vale da Piedade (em risco iminente de ruir e ameaçada pela construção de um bairro social - a própria autarquia parece assumir-se como carrasco de um património raro e que deveria servir como extraordinário meio de valorização do núcleo histórico; em vez disso, pretende-se acentuar o carácter de gueto social nesta zona, onde o potencial turístico é enorme).
As antigas fábricas do Cavaco e do Monte Cavaco estão também em ruína, esperando-se - pelo menos - que sejam devidamente estudadas em termos arqueológicos, procedendo-se à recolha do espólio - que deveria integrar um futuro museu na antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas. Assim esperamos e assim procuraremos intervir, sempre que necessário.
© Ana Margarida Portela, 2004
Este texto está apenas disponível na Internet, devendo ser referenciado como tal, caso pretenda fazer citações do mesmo. Uma versão deste texto, com carácter de artigo científico (incluindo as competentes notas de rodapé e bibliografia) foi publicada em: A Fábrica de Cerâmica das Devesas – entre a Arte e a Indústria. In "Fabrikart – Arte, Tecnología, Industria, Sociedad", Bilbao, Universidad del País Vasco, 2005, p. 92-101.
Caso esta questão lhe interesse e pretenda saber mais; caso pretenda conhecer novos desenvolvimentos posteriores à edição deste texto; caso deseje fazer algum comentário ou rectificação, por favor contacte a autora. Consulte também: Artefactos de cerâmica aplicados à Arquitectura do Romantismo em Portugal - Tese de Doutoramento em História da Arte
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